
Ele queria escrever essa história, me disse Krelid, reunir em um lugar seus amigos e conhecidos que, para ele, fizeram um momento, como uma homenagem. Ele nunca foi um escritor, entenda, e para escrever essa história, tive que ajudá-lo, me disse. Ricardo queria contar essa história, reunir seus amigos nela, mas não sabia exatamente como conseguiria isso. Por isso me pediu ajuda naquela época. Fui criado por ele somente para isso, para poder ajudá-lo a contar sua história. Eu, Krelid, seu personagem mais estimado, o servi desde então. Nosso pacto nunca se desfez, pois a história nunca foi finalizada, o que nem eu, nem ele, conseguimos admitir, simplesmente. Enquanto a história não esteve pronta, Ricardo tentou suportar toda a imensa ruína que despencou sobre ele e, com minha ajuda, ainda se manteve vivo. Mas a construção é imensa, me disse Krelid, foram anos, como dizem, jogados fora. No momento que ele me criou, disse Krelid, prometi fidelidade, mas foi ele que não conseguiu cumprir sua promessa e me abandonou primeiro, na metade do caminho, desistindo de nosso projeto e, claro, de mim. Há anos que não o sirvo mais. Há anos que ocupo essa imensa área enclausurada que ele me abrigou e, aqui, nessa imensa área, e durante outros anos, projetei minha liberdade que, numa interpretação mais petulante, pode ser tida por vingança. Usei sua própria idéia, a de contar uma história com seus amigos, para isso; desta vez o coloquei como personagem principal, de forma que eu pudesse deturpá-lo como eu desejasse e, finalmente, concluísse essa história da minha maneira. Agradeço a ele por ter me criado, e você deveria fazer o mesmo por mim, Ricardo, meu personagem mais estimado. Ele também deveria me agradecer; concluí sua história, dei-lhe liberdade, finalmente, me disse Krelid, rindo. Acanhado, o brilho da manhã avança, devagar, pelo quarto enegrecido, e revela, sem pressa, o espaço, vazio, entre mim e ele, Krelid.
28 de agosto de 2008
A terra imaterial
10 de agosto de 2008
K.

Quando levanto a cabeça para encontrar seu olhar ou alguma coisa perdida entre seu relato e meu transtorno, eu o vejo, em pé, produzindo com os lábios uma espécie de murmúrio que prolonga os “esses” e os “tês”, como se estivesse escolhendo as palavras certas para me dizer e as praticando secretamente. Seu olhar volta a se fixar em mim, enquanto os lábios se mexem, dessa vez, para formar uma frase completa. Ele se apresenta, então; e finalmente. Krelid. O misterioso K., autor que usa as palavras dos seus livros para implantar seus códigos, só pode ser ele, penso.
Krelid se aproxima da porta entreaberta do quarto. Tenta ouvir se os três amigos ainda conversam lá embaixo. Parece que não. Parado a um metro de mim, volta e senta. A posição o obriga a cruzar as pernas, repousa as duas mãos sobre os dois joelhos; me dá o tempo necessário para refletir o que acaba de dizer.
5 de agosto de 2008
O crime que nunca aconteceu
... é estranho suspeitar que tais acontecimentos se tratassem de um crime, embora os vespertinos não tivessem apontado, diretamente, que os desaparecimentos fossem conseqüência de um plano de delinqüentes, as inúmeras coincidências aqui, traçaram essa opinião pública. Colocamos a pinacoteca do estado em suspeita e por esse destaque todo, tivemos que pagar um elevado custo; um caríssimo tempo perdido. As evidências estavam, como dizem, na nossa cara. E só não pudemos percebê-las porque alguém, sim, alguém, quis desviar nossa atenção, com muita sutileza, para casos mais supérfluos.
Quero expor, agora, um desses importantes vestígios que por pouco não dei atenção, acontecido nessa mesma data, um ano atrás, antes do desaparecimento do Victor. As declarações de Bernardo Brito e Juliana Cândido foram indispensáveis e, a partir delas, relato minha reflexão: Victor apresentava um estranho quadro de comportamento, quando foi visto naquela semana; “como se ele tivesse perdido a noção de tempo”, disseram. Embora precipitada, a natureza da afirmativa não ganharia meus créditos se, alguns meses mais tarde, um fenômeno muito parecido fosse encontrado no trecho em azul da seguinte nota. Ora, além desses trechos esconderem nas entrelinhas mensagens suspeitas (e que não vem ao caso nesse primeiro momento), ele descreve algo muito parecido com o que teria acontecido com o Victor nos últimos dias em que fora visto, mas na pele de sua personagem, Silvana Becker. Sei que as coincidências precisam de todo o cuidado nessa investigação (a elaboração de inúmeros fatos simultâneos pode ser manipulada por essa mente que tenta desviar nossas atenções), mas ignorar tais suspeitas nos atrairá para longe da verdade, como era até então. Entenda, o crime nunca aconteceu. Estamos diante de um fenômeno de outra ordem, psicológico, talvez. A propagação dessa influência, contagiosa, é o objeto decisivo na ordem de toda essa investigação e responde com eficiência alguns dos casos mais incoerentes por onde passei. A mudança de personalidade, diretamente ligada a essa “doença” precisa ser, então, o centro de nossas atenções. - Pensei.
25 de julho de 2008
Semi-enterrado
O que eu quis descobrir, chegando à casa dele, me disse, era que ali, encontrasse uma pista, por assim dizer, do que estava acontecendo com os desaparecidos, talvez encontrá-los, não sei, me disse. Ricardo, você queria encontrá-los todos aqui, achou que a Silvana ou o Victor estivessem nessa casa, e que te receberiam no sofá, com um cafezinho, para explicar tudo o que haviam passado. Você se pergunta sobre os nomes que mais ouve falar por aí, e vai atrás deles, só não se perguntou sobre você mesmo, e esse foi seu erro, Ricardo, me disse. Eles, os desaparecidos, assim como você, me disse, estão todos no mesmo saco. O que você chama de desaparecido tem outro nome, Ricardo. Vocês estão desfigurados. Não são mais os mesmos. Converteram-se em outros, e essa nova forma que adquiriram, fizeram com que vocês tomassem uma nova vida, e então, já não eram mais encontrados nos mesmos lugares de antes. Foram dados como desaparecidos. Você, me disse, não é o mesmo Ricardo que alguns te conheceram há alguns anos, e se ainda te procuram no mesmo lugar que era encontrado naquela época, então nunca mais te encontrarão. Assim é com todos os nomes dessa lista que você diz estar desaparecido. Mas desaparecidos, não é exatamente o que vocês estão.
18 de julho de 2008
Nada, nada
Você conhece os nomes que estão nesta lista? – escuto-me perguntar aquele homem que nunca vi, mas que me conhecia tão bem, inexplicavelmente bem. – Aí estão alguns dos nomes que te fizeram chegar até aqui, alguns que você não deve nem se lembrar – diz afastando-se de mim e deixando que uma sombra invadisse metade de seu rosto. Em seguida, toma o pedaço de papel de minhas mãos e faz uma leitura aleatória de alguns deles, tem a face escurecida e um pouco assustadora. Douglas. Amaral. Bernardo. Letícia. Karen. A leitura é monótona e compassada. A cada novo nome dito sua expressão facial se altera, como se cada um o modificasse por dentro; e inteiramente. Rodrigo. Silvana. Agora pára; e agora, na total escuridão, já não lê mais. Fixo meu olhar no chão. Victor. Denise. Nadja. A janela do quarto está aberta. O barulho do motor de um carro desvanece aos poucos. Christian. Gabriel. Luciana. Sentado na minha frente, as mãos apoiadas nas pernas, oblíquas, ele não se move. A luz que vem do corredor, das suas costas, forma sua silhueta. Agora não há mais nada. Um carro passa na rua.
26 de junho de 2008
17 de junho de 2008
Algo como a vida
Ele, da minha estatura, falava com uma voz natural que se multiplicava pelo primeiro corredor que atravessamos. Sabia quem eu era. Ricardo, ele disse. E fazendo questão de se apresentar como um importante personagem de um romance, acrescentou minhas boas vindas àquela casa. Observei-o atenta e deliberadamente, procurando um sentido em sua fisionomia e em suas palavras. Desejaria umedecer os lábios e compor minhas intermináveis perguntas, mas sua presença, os inúmeros rumores que acabavam de se formar sobre sua pessoa em minha cabeça, impediam uma série de movimentos pelo meu corpo, mesmo os mais espontâneos, como esse, a fala. Sem demora, uma palavra, um verbo conjugado afetuosamente me suscitou a entrar.
Três homens conversavam entre si em uma das salas. Pela primeira vez fui apresentado sem que dissessem meu nome, mas não que isso os impedisse de saber quem eu era, embora eu nunca tivesse visto antes qualquer das caras ali dispostas. Não tive a chance de conhecê-los naquele momento, fui logo levado ao andar superior, no que eu entendi ser o seu quarto.
- Tome cuidado, você está indo longe demais. – disse enquanto eu procurava um lugar para me sentar. – Você teve a chance de largar tudo, mas insistiu nessa sua idéia de descobrir o que está acontecendo, e isso, como dizem, pode te sair muito caro, Ricardo.
Ele se levantou e pousou uma de suas mãos sobre meu ombro. Entregou-me o que ele chamou de pequena preciosidade; uma lista que muito me interessaria, disse.
9 de junho de 2008
Praça Luiz Amorim, nº 24 – Lapa
Os velhos que jogam xadrez na praça, à tarde, fazem parte da mesma literatura que usa o céu e o mar para ilustrar o encontro de um casal na praia. Sem xadrez, nem dominó, a praça é como qualquer outra praça desses bairros de classe média (alta?), e que a subprefeitura mantém o cuidado uma vez por mês, com o envio de jardineiros e outros profissionais que entendem de praça. Ali, parado, com metade dos pés na calçada, metade a flutuar, localizei a casa que faz título ao texto que você lê. Para resumir a descrição da casa me utilizarei somente de duas das qualidades mais evidentes: opulenta e branca. Passaram-se vinte e um minutos das sete horas da noite e eu estou à uma hora nesta posição. Começo a me mover, agora.
5 de junho de 2008
Quarta Página
As ruínas nos contam que ali houve uma cidade próspera, que por um incêndio, uma batalha sangrenta, fora destruída até sobrarem essas últimas pedras; esse antigo vaso de barro pintado à mão; as cinzas de uma família que não conseguiu fugir da casa, pois os oficiais obrigaram seus homens a bloquearem todas as portas, mesmo ouvindo os gritos de mulheres e crianças lá dentro. Agora, o pouco que se vê dos móveis simples já estão misturados aos pedaços de ossos que suportaram às chamas e ao tempo, ali o crânio de um homem adulto permanece intacto, como parte da parede onde ficava o dormitório das crianças. Deitados no chão, podemos sentir pelo corpo, o calor daquele dia e, com mais atenção, ouviremos os rumores de vozes distantes.
26 de maio de 2008
Decifrados, os trechos
“(...) inabalável, não o diferenciava da paisagem, decidiu não bater a foto, às vezes seus critérios funcionam antes de marcar dois xis nas suas fotografias em casa, o que não acontecia dessa vez, tirou um número menor delas. Aquele homem se aproximava e a obrigou guardar o par de lentes na bolsa, ousado, ainda perguntou o que ela estava fazendo, tirando umas fotos, como sempre(..) ele se apresentou como Luiz - Silvana – ela revidou. Se sentou sem convite, (...) revelou que passava por aquela praça todos os dias, e que ela parecia perdida, nesse mesmo banco, preocupada com as fotos, mas que não entendia o que uma artista? Fotógrafa, fotógrafa via tanto nesse lugar, que só tinha velhos jogando xadrez. Ela corou. (...) outra vez mudava de forma, todos os dias, naquela praça e nunca o viu (...) as fotografias não faziam mais sentido, naquele beijo, a idéia delas lhe pesavam, os critérios, a pasta etiquetada (...) não sabia se o que sentia era verdadeiro, o amor, impraticável com o tempo, de certo que ilude, e se fosse isso que estivesse sentindo, ponto de interrogação (..)"
Os códigos indicam uma localização, e é específico.
Em verde, a localização no bairro: praça Luiz Amorim – entre Lapa e Perdizes
Em rosa, a localização da casa: a de menor número par na casa dos vinte - dois xis (XX), número menor, par.
21 de maio de 2008
Isto está como era há nove anos, aparentemente, quando você me incorporou. É a lembrança de nosso trato, projetado na parede do corredor e que te faz confundir com uma sombra em perfil de um rosto humano, pouco nítida. Isole-se desse mundo exterior de uma vez; desses que você se apoderou o nome para contar essas histórias que ninguém lê.
19 de maio de 2008
A despedida de Rodrigo e Luciana
que aconteceu ontem à noite, foi dos poucos momentos infelizes em que estivemos, os três, nos braços um do outro. Luciana era a mais emocionada, dizia que aquilo era temporário e que nos veríamos em breve, mesmo sabendo que no mínimo, estaríamos assim, aos abraços, em cinco ou seis anos, prazo que Rodrigo e ela combinaram o retorno - aos pais e à sociedade. Comigo, continuariam a se corresponder pela internet, e prometeram, também, que mandariam cartas e fotos. Em princípio, passariam uns dias, um mês talvez, na casa de um amigo em Fortaleza, tentariam arrumar alguma fonte de renda para, quem sabe, arranjar um cantinho aos dois, nem que fosse num barraco, isso pouco importa, diziam enquanto esperavam a chegada do elevador. O último abraço se deu ali, o triângulo verde se acendeu e as malas foram colocadas para dentro. Luciana se encostou ao fundo e me olhou, sem expressão. Foi Rodrigo que apertou o botão.
7 de maio de 2008
O final de um capítulo
O quarto estava cheio de lixo; material impresso que ainda guardo e que acho que vai me servir algum dia. A poeira antiga que se descolou do meu corpo anestesiado, se deslizava nos folhetos e catálogos de mostras de cinema, passeava pelo chão e ar, dando forma ao feixe de luz que entrava pela janela quase fechada; ou quase aberta aos otimistas auto-ajuda. Eu estava sentado na cama, com os olhos que enxergam a poeira e as coisas sujas. Havia um tom de desespero. Quero dizer, triste, melancólico. Mas chorar é uma coisa tão ridícula, pensei.
Antes de me deitar, li algumas páginas do livro que fazia de mim protagonista. Impacientava-me descobrir quem escrevera aqueles contos com aqueles nomes, – pois querendo ou não – quem me usava como personagem numa história que nunca vivi, interrogação. Por mais que eu tentasse resgatar com a memória um nome, um candidato possível, o desafio se mostrava inútil. Ninguém que eu conhecia era suficiente para ter escrito aquele livro, mas a verdade é que, a verdade parece, parece, e um pouco mais sobre ela, a verdade, agora sei, ou acho que sei, o que dá na mesma.
3 de maio de 2008
A confissão de Baraglia - parte 3/3
Para Baraglia era evidente, os trechos arrancados estavam em códigos. Amaral insistia que o autor K. era um sujeito que usava a narrativa para contar uma outra coisa, disso Baraglia se lembrava. Não levou muito tempo para Baraglia e Cazarim entrarem em conflito, enquanto o primeiro começou a se dedicar na busca por esses trechos, o segundo continuou o projeto inicial da exposição. O objetivo dos dois era o mesmo, mas se separaram. Baraglia não me contou como isso aconteceu, nem era necessário, não duvido que a vaidade tenha aberto uma disputa entre os dois. E enquanto não houvesse um vitorioso, eles se tratariam como crianças; só que nenhuma delas tinha o melhor brinquedo, pensei. Cazarim afastou-se de Baraglia e chamou Bruno Mendonça para curar a exposição com ele, enquanto Baraglia e sua amiga Fernanda, tentavam desvendar os códigos dos outros livros de K.
Baraglia ia sorrir. Parecia contente com a frustrada exposição na Pinacoteca. Ao invés disso, conservou seus traços, desconfortável, assumindo pela primeira vez, diante de mim, sua falência humana. Ainda com a cabeça baixa, me ofereceu mais guaraná. Recusei. Ele prosseguiu: - Eu e Fernanda estávamos confiantes de que as páginas arrancadas de Homenos, se tratava de um código, e que certamente, Amaral as tinha decifrado. Foi em um outro livro de K., porém, que descobrimos algo muito interessante – e disse meu nome. Aguardei que avançasse ao novo tópico que estava para expor. Baraglia procurava meu olhar, pela primeira vez. Eu sabia que ia entrar no relato, afinal ninguém tem o impulso de me olhar daquele jeito, e dizer o meu nome, sem que eu tivesse alguma coisa a ver com a história e... – conseguimos entretanto, decifrar os códigos de um outro livro de K. que se chama Infantos. – comentou dizendo meu nome - , nesse livro ele cita você. “Como?” A sonoridade ou alguma outra coisa em seu relato não fazia sentido para mim. Apesar de não encontrar problema na interpretação daquele texto que mal lhe saía da boca, em mim, uma resistência natural não admitia a situação e me dizia que o relato não fazia sentido. Baraglia explicou-me, então, que eu era o protagonista dessa história em Infantos, e que, pelos trechos finais do livro, sua habilidosa amiga Fernanda descobrira a presença de alguns códigos nele, provavelmente como os descoberto por Amaral em Homenos. O autor K., nesses códigos, diz a maneira precisa de se encontrar um dos personagens. – você – disse Baraglia. Eu, pensei. K. o misterioso K., então era alguém que eu conhecia, pensei. Baraglia se levantou e foi ao quarto. Ao voltar, tinha em mãos Infantos, o livro que contava a ficção com meu nome e a maneira de se encontrar alguns dos personagens nas entrelinhas. Peguei o livro e o abri nas páginas finais. Estava todo marcado à tinta em diversas passagens, com indicações e setinhas que interpretei terem sido feitas pela Fernanda. Então, como se a brisa que batia na minha nuca, ou o silêncio da noite, ou qualquer outra dessas representações literárias farsantes, pude assimilar os códigos decifrados facilmente. Numa fração de segundos, como diriam, visualizei também como decifrar os que estavam comigo, os do livro Homenos. Poderia nesse livro, então, ter indicações de como se chegar à Silvana Becker? -me perguntei. Baraglia utilizou-se de uma técnica para ler meus pensamentos. Fracassou e só pôde dizer o quanto estava decepcionado com tudo isso.
27 de abril de 2008
23 de abril de 2008
A confissão de Baraglia - parte 2/3
A noite avançara, Baraglia perguntou se eu queria que ele fechasse a janela. Disse que não me importava muito com aquilo, e então ela foi fechada pela metade. O som da rua, naquele momento, não competia mais com o nosso diálogo. Esperei que ele despejasse mais guaraná no copo. Esperei que ele voltasse ao assunto. Cada passo, cada palavra, cada gota de suor que lhe refrescava a testa, era um sinal que sua vida também avançava, mais algumas horas para me contar o que contou. – e então ele apresentou o livro para nós, empolgado – repetiu.
Amaral foi o primeiro a investigar a existência da Silvana Becker. Ele trazia material para casa que recolhia nos momentos livres do trabalho. Mostrou aos dois – Cazarim e Baraglia – algo do que tinha recolhido. Sim, ele estava empolgado com a idéia de que o autor do livro Homenos, na verdade, tivesse mesmo se inspirado nessa artista desconhecida para escrever o livro, e essa idéia nunca foi bem aceita pelos outros jornalistas, que não conseguiam descobrir quem era ela. A investigação, então, caiu no autor do livro. As palavras de Amaral, nas palavras de Baraglia, era que o autor, de fato, usava um pseudônimo: – ele nos mostrou dois outros livros que tinha conseguido, desse mesmo autor - ainda mais empolgado – disse Baraglia. Esse autor, que assina como K. havia escrito mais livros. Nesse momento, Baraglia me pediu licença. Alcançou o copo na mesinha e bebeu tudo num só gole, olhando para um ponto fixo no teto da sala. Ainda se esquivando dos meus olhares, continuou: - O Amaral foi fundo nessa investigação, leu os três livros várias vezes, e claro, nos fez entender parte de sua teoria, por assim dizer. Ainda naquela época, nós três pensamos na possibilidade de curar uma exposição com as obras dessa Silvana Becker, seria uma tentativa de nos encontrarmos com ela, e quem sabe, solucionar tudo isso. Parecia uma ótima idéia, Amaral tinha muitos contatos, e a Pinacoteca já nos havia aprovado os primeiros avanços. Muito pouco tempo depois, no entanto, aconteceu o inesperado desaparecimento do Amaral. Ele era a peça fundamental, me entende? –disse Baraglia. Com o desaparecimento do amigo, Baraglia e Cazarim eram os únicos que conheciam, ainda que superficialmente, aquelas evidências, mas não sabiam tudo sobre as descobertas de Amaral. Ainda assim, os dois tomaram as investigações. Ao fuçar o apartamento de Amaral, encontraram os livros escritos por K., e perceberam que alguns trechos do livro Homenos tinham sido arrancados, provavelmente pelo amigo desaparecido, e se fosse isso que tinha feito o Amaral desaparecer? perguntava-se Baraglia.
15 de abril de 2008
A confissão de Baraglia - parte 1/3
Então Baraglia me contou. O texto mal saía de sua boca. Eu precisava fazer perguntas a todo momento para ele continuar o assunto, alguma coisa o perturbava, mas ele precisava disso, me contar tudo o que sabia. Estávamos na casa dele. Eu, à vontade; de costas para uma janela aberta, com um guaraná ao meu alcance em uma mesinha que me separava da poltrona onde ele estava sentado. Pela primeira vez vi um Baraglia frágil, que evitava meus olhares e respondia minhas perguntas daquele jeito, com um texto que mal saía de sua boca. Aquilo durou a noite toda, e a noite toda não foi mais do que essa conversa, desconfortável. Eu dizia que se aquilo o perturbava tanto, que não era preciso me contar naquele momento, daquele jeito. Ele ria como um mau ator e me explicava porque sua confissão era tão importante para ele quanto para mim. Não demorou muito para citar o nome do Cazarim. De alguma maneira, não me surpreendeu saber que os dois se conheciam – há muito tempo, muito antes de te conhecer – ele se explicou. Cazarim e ele eram bons amigos, entendi, e de vez em quando apareciam na casa do Amaral, um outro amigo que freqüentemente os convidava para experimentar uma receita que inventava e jogar papo fora, disse. Em uma dessas reuniões, Amaral apresentou um livro que estava inquietando os jornalistas onde trabalhava, virando polêmica no meio, me disse que disse. Homenos, um livro curto que conta a história de Silvana Becker. Um dos jornalistas, colega de Amaral, alardeava que o nome da personagem era o mesmo de uma fotógrafa que tivera uma exposição individual na França naquele mesmo ano. A coleção apresentada nessa exposição, também se intitulava Homenos. Alguns jornalistas acreditavam que a artista usara o nome da personagem do livro como pseudônimo, o que é muito comum, aproveitando-se também do nome do livro para sua coleção, por que não? Mas o que Amaral não entendia, era como ninguém conseguia descobrir quem era ela. Uma artista sem histórico, sem imagem, sem conhecidos e, no entanto, tão boa, com obras tão incríveis. E então apresentou o livro para nós, empolgado – disse Baraglia logo acrescentando as palavras do amigo: – pensei em todas as possibilidades, acredito, inclusive o contrário: a fotógrafa pode ter servido de inspiração ao escritor desse livro, pensei outro dia, e então, só ele deve saber quem ela é de verdade.
Baraglia se colocava à beira de qualquer coisa ao contar esse relato, o sangue subia-lhe a cabeça. Com as pontas dos dedos esmagava as gotinhas de suor que se formavam na testa, um gesto tão sutil, que faltava. Uma ausência, cuja (in)existência ocultava, ainda, o perigo mortal.
8 de abril de 2008
31 de março de 2008
Terceira Página
Assim, para o autor, todos os homens seriam místicos das palavras, cada um pode e sabe preparar o terreno para o desenvolvimento de uma história, por mais simples que esta se apresente. Como seres sencientes podemos compreender a própria existência, como somos capazes, também, de interpretar o que nos rodeia; e a criação de uma história nada mais é do que essa interpretação que temos do mundo – diz. Com a descoberta do livro (e entendam isso como o advento da palavra – escrita ou falada), no entanto, começamos, então, a criar o que ele define como jitse (não existe uma tradução perfeita para nossa língua), o que seria uma espécie de microcosmo que guarda a memória do Universo. O homem possui uma mente que funciona segundo princípios próximos das leis universais, não estamos separados da natureza, mas como concentramos o jitse, por assim dizer, não é com outras palavras que o autor nos define então como a memória do Universo.
24 de março de 2008
A impressionante fuga do Egito
Se em rua, as maneiras de brincar eram outras, como eram outros os que se juntavam com a gente. Vinham de lá de baixo; do buracão; da Sassaki; ou do cortiço, da Baquirivú, e da minha rua mesmo. Não de uma vez. Em temporadas. E diferente dos miúdos que estudam na mesma sala e vão pra escola juntos, a gente se conhecia na rua mesmo, apresentado por um Binho, um Danilo; só para citar uns nomes. Acontecia também da gente ir na casa de um ou outro. Os japoneses da Sassaki, por exemplo, inventaram, uma vez, um campeonato de jogo de botão, com todos meninos possíveis da região, na casa deles. Num caderno, esses irmãos organizavam uma imensa tabela dos jogos do dia, bem detalhada que era. Na inscrição, você dava o nome ou apelido, onde você morava, e podia logo escolher um time ali disposto, numa das caixas de sapato. Deram um jeito de me inscrever, mesmo com o campeonato começado, e fez daquelas tardes um novo motivo para eu sair de casa. Lá, duas coisas podia se fazer, por assim dizer: ou você assistia o campeonato no quintal, acompanhando os jogos dos adversários, ou ia pra sala, abarrotada, tentar uma chance de jogar mortal kombat, pra passar o tempo até chegar a sua vez. Quando era hora de se apresentar lá fora, para o campeonato de botão, um dos japoneses, ou outro menino ali, perguntava se fulado de tal estava presente. Se ele não aparecesse, anotavam no caderno que esse tinha perdido por w.o . Sem outras chances, assim que era. Flowers Victory, Fatality.



